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segunda-feira, 18 de abril de 2005

Unidos para "nos fazer a cabeça"

O Estado de S. Paulo, domingo, 3 de outubro de 2004

*** Unidos para ‘nos fazer a cabeça’ ***

Fernão Lara Mesquita

Teórico comunista italiano, Antonio Gramsci desenvolveu a tese amplamente experimentada no Brasil de que, mais que tomar fisicamente o poder pela revolução, o importante é “conquistar a hegemonia cultural da Nação apossando-se da máquina de difusão ideológica da burguesia”. Uma das moedas de troca usadas na negociação com a oposição esquerdista para a compra de um lugar ao sol na Nova Republica foram as concessões feitas pelos grupos privados de mídia que tinham servido a ditadura às novas forças políticas em ascensão, no uso de suas redes de comunicações. Partindo de uma posição já bastante forte tanto nas redações quanto nas artes cênicas, tradicionais redutos da resistência ao regime militar, esses grupos, na nova situação, rapidamente chegaram a posições de hegemonia na operação dos
vetores eletrônicos desses dois produtos cruciais da “pauta ideológica da burguesia”.

As novelas — especialmente — têm sido a plataforma de onde se difunde para cada brasileirinho e brasileirinha, desde que nasce, um trabalho de “amaciamento moral” por meio de um “menu” político e comportamental que é quase um manual de promoção das diversas formas de transgressão dos antigamente ditos “valores da família” e de ridicularização das bases da “democracia burguesa”. Misturados a enredos onde, em meio às mais sórdidas perfídias, invariavelmente tratadas como comportamentos corriqueiros e “normais” que não seria politicamente correto criticar nem muito menos reprimir, os personagens representando cada agente dos velhos
esquemas da luta de classes aparecem estereotipados, para o bem ou para o mal, segundo a sua classificação nas antigas cartilhas marxistas.

Somado ao trabalho de filtragem de noticiários e ao que é feito nas escolas, outro dos focos do esforço “gramsciano” de conquista de uma “hegemonia cultural”, preparam-se os corações e mentes tanto para o grau de libertinagem que por aqui se tolera quanto para a longevidade de certos discursos e mitos mortos em todo o resto do planeta, que tanto intrigam todos quantos, de fora, tentam entender o Brasil. O brasileiro, portanto, tem memória sim.

Quando “vota mal” não é só por falta de alternativa, mas porque essa memória é permanentemente submetida a uma “lavagem” à qual é impossível ficar indiferente. O bloqueio regulatório que dificulta a diversidade da mídia e facilita os conchavos e o jogo de falsificação acima descritos interessa — ainda que por razões diferentes — a todos os membros do consórcio, até aqui multiideológico, que produziu essa situação e dela se beneficia.

O que o PT
quer com seus projetos censórios da Ancinav e do Conselho Federal de
Jornalismo, proposto pela Federação Nacional de Jornalistas, é ter esse mesmo braseiro avivado e, agora, próximo só da sua sardinha.

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